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FÓRMULA TRUCK – Dos dias de glória ao fim – Nossa homenagem à categoria que encerra suas atividades em 2017

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E a triste notícia, já esperada por nós, infelizmente chegou: OFICIALIZADA A SUSPENSÃO DAS ATIVIDADES DA FÓRMULA TRUCK EM 2017! Segundo Neuza Navarro, atual presidente e responsável pela categoria, foram encerradas as atividades deste ano, mas em 2018 farão tentativas de parcerias para uma retomada. O que, não acredito muito! Claro, trabalho não faltará, vontade também não, mas na atual conjuntura e com as dificuldades do ESPORTE A MOTOR neste país, dificilmente uma categoria retoma suas atividades em tão pouco tempo. Uma pena, que pena!

Apenas para relembrarmos e até mesmo homenagearmos, tudo nasceu da vontade, fé e desejo de um caminhoneiro e um jornalista! O caminhoneiro? Ele, AURÉLIO BATISTA FÉLIX. O jornalista? Francisco Santos (Um português).

“Aurélio Batista Félix nasceu em Santos no dia 24 de abril de 1958 e desde criança teve contato com caminhões. Era filho de caminhoneiro e ficava fascinado ao ouvir histórias das viagens do pai, Reinaldo Batista Félix. Aos nove anos começou a receber as primeiras orientações sobre como manobrar caminhões e aos 11, já era um expert em miniatura. Algum tempo depois, usava uma Kombi para realizar manobras que mais tarde fariam parte de seus shows nas provas da Fórmula Truck. O trabalho como caminhoneiro começou mesmo aos 18 anos graças a doença do pai. Assumiu a boleia e passou a fazer o transporte de motores Ford, do extinto Maverick, para o porto de São Sebastião – no litoral Norte de São Paulo. Ele descia a rodovia dos Tamoyos e se divertia dirigindo carretas de 10 toneladas” – Site Oficial Fórmula Truck

Exatamente em 06/09/1987 tivemos a primeira corrida da categoria, no Paraná, especialmente no Autódromo Internacional de Cascavel. Chamada de 1ª COPA BRASIL DE CAMINHÕES, a prova reuniu 35 pilotos e na verdade acabou servindo para averiguar e testar a segurança de “brutos” como aqueles, juntos e em alta velocidade! UM TIPO DE CORRIDA INÉDITO DE CORRIDA!

Foto: Fórmula Truck Oficial / Orlei Silva

Mas infelizmente, para tristeza geral, um acidente FATAL com Jeferson Ribeiro da Fonseca – na época presidente do Autódromo – colocou a ideia em check! Motivo pelo qual, o jornalista Francisco Santos acabou se retirando do projeto 3 anos depois!

Depois da tragédia, Aurélio focou em um trabalho mais direcionado e focado na ideia de uma categoria de caminhões sólida e segura. E assim, criou a Racing Truck (1993), na mesma sede da Transportadora ABF, em Santos. Em paralelo ao seu ganha pão, transporte, o visionário investia no seu grande sonho. Aos poucos, foi preparando alguns caminhões que tirava da sua própria frota para correr nas pistas. Os trabalhos de transformação, preparação do motor, suspensão, criação de novas peças e principalmente os equipamentos de segurança, exigiram incansáveis pesquisas e reuniões do pequeno grupo comandado por Aurélio Batista. Com a experiência adquirida neste tempo e nesse mundo, criou a ANPPC (Associação Nacional de Proprietários e Pilotos de Caminhão), cujo foco foi trabalhar em um regulamento técnico – com a preocupação de colocar modelos e marcas diferentes em nível de igualdade nas pistas.

Assim, somente 7 anos depois da tragédia, uma nova investida! Mas não foi fácil. Com o acidente em 87, a CBA proibiu corridas de caminhão. Mas o incansável Félix, em 94 conseguiu uma liminar na justiça para executar provas de exibição. E assim foi feito, no mesmo ano, uma outra prova de apresentação ocorreu com o objetivo de convencer caminhoneiros, imprensa e empresários, no Autódromo de Interlagos/SP. No ano seguinte, foram 4 provas de demonstração nos autódromos de: Cascavel (PR), Londrina (PR), Tarumã (RS) e Goiânia (GO) – Na capital goiana, foram mais de 120.000 pessoas no autódromo! Desde o início, um sucesso de público e fãs. Com o sucesso de público e procura, a CBA passou a cogitar uma homologação daquele tipo de corrida.

O INÍCIO

Em 1996 o primeiro CAMPEONATO! Enfim o reconhecimento de TODO o esforço e trabalho de um desbravador, lutador e sobrevivente em um país que ATÉ hoje não cuida o esporte como devido. Tudo certinho, com regulamento definido e aprovado pela CBA – Confederação Brasileira de Automobilismo. Estava oficializado o CAMPEONATO BRASILEIRO DE FÓRMULA TRUCK. E o palco onde TUDO começou, nada mais, nada menos que Guaporé/RS. A prova inaugural contou com 13 caminhões no grid. Naquele ano chegaram a andar nas pistas 19 pilotos e o PRIMEIRO campeão foi o paulista Renato Martins (88 pontos), com um caminhão Scania, enquanto o vice foi Sérgio Drugovich (paranaense) com 84 pontos.

Foto: Fórmula Truck Oficial / Orlei Silva

Entre 1997 e 2007, foram diversos campeões: Os paranaenses Oswaldo Drugovich Jr e Wellington Cirino levaram 5 dos 11 títulos nesse período. Jorge Fleck, gaúcho, faturou 2 títulos. Renato Martins faturou seu bi-campeonato e ainda tivemos Roberval Andrade e Beto Monteiro levantando o caneco. Em 2007, Felipe Giaffone começara sua jornada de campeonatos.

E chegamos em 2008, a 13ª Temporada da Fórmula Truck. E naquele ano mais um grande sonho de Aurélio seria alcançado: UMA CORRIDA INTERNACIONAL – Na Argentina. A ideia havia tomado FORÇA e VIGOR após uma visita de Aurélio, em 2007, a uma etapa da TRUCK EUROPEIA – Alemanha. Com isso Félix entendeu que:

“Nossa F-Truck é superior à deles em todos os aspectos. Nossa tecnologia de preparação dos caminhões e a estrutura de produção do evento são muito melhores do que a deles”

Mas quis o destino que o novo sonho do gigante Aurélio não fosse realizado em vida. Na primeira etapa de 2008 (02/03), ironicamente onde tudo havia começado – GUAPORÉ/RS – Aurélio passou mal após a prova, foi socorrido ainda no autódromo e depois levado ao Hospital São Vicente, em Passo Fundo. Após uma cirurgia bem sucedida, complicações o fizeram retornar ao hospital, quando foi constatada uma hemorragia estomacal que INFELIZMENTE levou ao seu falecimento em 05 de março de 2008.

E então? Fim da categoria? Não! Sua esposa, Neusa Navarro Félix, decidiu tocar o barco e assumir a bronca! Contando com pessoas/coordenadores, que aprenderam tudo com Aurélio, ela resolveu dirigir a temporada. Com a comoção gerada no mundo do automobilismo, a categoria fechou o ano de 2008 com altíssimos índices de público e audiência. O campeão foi Wellington Cirino.

“Eu fiz uma grande reunião com todos os funcionários. Queria sentir deles o que seria dali pra frente. E tomei a decisão de assumir a presidência para continuar com todo o trabalho que ele havia feito. O Aurélio foi enterrado numa sexta-feira. Na segunda, eu já estava na lida” – Dona Neusa (Fonte: RedBull.com)

Foto: Fórmula Truck Oficial

Na época, a categoria já envolvia, direta e indiretamente, 5000 pessoas e movimentava milhões e milhões em cada etapa. Além das corridas, Aurélio criou o Show dos Caminhões, comandado por ele mesmo e era um sucesso com as manobras absurdas (zerinhos, manobras espetaculares e até uma bomba que explodia na traseira do caminhão)! E foram as filhas Dani, Gabi e o filho caçula (Aurélio Jr.) que assumiram o espetáculo!

E em 2009 a categoria continuou forte e inclusive levou, pela primeira vez, uma etapa para fora do país. O palco: Autódromo Juan Y Oscar Galvez – Buenos Aires. Ao todo foram 10 etapas e ao final, Felipe Giaffone se tornou campeão pela segunda vez.

Foto/Fonte: RedBull.com

Entre 2010 e 2016 tivemos mais títulos de Roberval Andrade, Giaffone (o último campeão) e Beto Monteiro. Além de 3 títulos do grande Leandro Totti.

E em 2017, a grande reviravolta na categoria! Uma notícia antes mesmo do início da atual temporada, abalou todo o circo da Truck. A associação de equipes e pilotos (composta por 9 equipes) anunciou a sua retirada da categoria. E com elas, obviamente, seus pilotos! Ao todo foram 20 caminhões e entre eles pilotos de peso (incluindo o campeão 2016). Veja parte do comunicado divulgado na época:

“O grupo formado por nove equipes e seus respectivos pilotos que participaram do Campeonato Brasileiro de Fórmula Truck em 2016, comunica que seus integrantes não participarão do certame de 2017, em virtude de conflito de ideais que vem norteando a categoria nas últimas temporadas, como falta de diálogo entre organização e equipes, incerteza de chancela do evento pelo órgão competente e falta de calendário prévio (anunciados apenas na segunda quinzena de fevereiro). Com o intuito de manter a saúde financeira de dezenas de profissionais empregados nas equipes associadas, a credibilidade dos proprietários e pilotos dos referidos times junto aos seus parceiros comerciais e ao público, e buscando soluções viáveis nas áreas organizacional, logística, comercial, financeira, técnica e desportiva, visando a solidez dos eventos de competições de caminhões, brevemente a recém-formada Associação irá anunciar os seus planos para este ano”

Emocionada, na coletiva de Tarumã/2016, a piloto Débora Rodrigues – emocionada – tenta explicar o rumo que tudo estava tomando:

E com isso, no início de abril/2017, os pilotos das equipes RM Competições, AJ5 Sports, DF Motorsport, RVR Motorsports, Dakar Motors, Fábio Fogaça Motorsports, Lucar Motorsports e Clay Truck Racing, que compunham a ANET (Associação Nacional de Equipes de Truck) decidiram não participar da temporada 2017 da categoria! E mais, resolveram que a experiência e a vontade de correr não deveriam ser deixadas de lado. Assim, semanas depois, fecharam parceria com a Sport Promotion Marketing Esportivo e criaram a COPA TRUCK. Uma categoria disputada em formato de COPAS (ex. Truck Nordeste, Truck Centro-Oeste e Truck Sudeste).

“Será um novo conceito, certamente criando o interesse das montadoras, indústria de autopeças do segmento de caminhões e demais anunciantes. Eles poderão usufruir deste novo modelo de competições para o relacionamento com seus públicos, aproveitando as suas características regionais. Estamos muito satisfeitos com o acordo e a oportunidade de trabalhar junto com profissionais que acreditaram em nosso projeto e seu novo formato de corridas, com tantos pilotos profissionais e competitivos, inclusive todos os campeões dos últimos oito anos, entre eles Felipe Giaffone – o atual Campeão Brasileiro” – comenta o presidente da ANET, Renato Martins (o primeiro campeão da Fórmula Truck)

GARRA E TENTATIVA DE SOBREVIVÊNCIA

Mesmo com a bomba no colo, Neusa e a organização da Fórmula Truck resolveram continuar e lançaram a temporada 2017 da histórica categoria. No calendário tínhamos previsto: Velopark (RS), Rivera (Uruguai), Londrina (PR), Cascavel (PR), Interlagos (SP), Goiânia (GO), Caruaru (PE), Argentina, Guaporé (RS) e Curitiba (PR).

Na primeira etapa, no Velopark, apenas 8 caminhões alinharam no grid – sendo apenas 2 da formação de 2016. Em Rivera, no Uruguai, a situação não foi muito diferente. Em Londrina/PR, a 3ª etapa, tivemos 7 caminhões e apenas 5 terminaram a prova, que no final das contas, fica marcada como a ÚLTIMA PROVA da categoria que nasceu oficialmente em 1996 e fecha as suas portas em 2017 – 21 anos COMPLETOS (1996/2016).

Foto: Douglas Estevam
Foto: Douglas Estevam

Em Cascavel, onde ocorreria a 4ª etapa, acabou cancelada (veja aqui a matéria). Já era a evidência de que a situação piorava a cada etapa. Até que, infelizmente, nesta quarta-feira (28/06/2017) tivemos o comunicado da categoria, informando a paralisação das atividades em 2017:

Comunicamos a todos patrocinadores, colaboradores, torcedores, dirigentes, pilotos e amigos, a suspensão de nossas atividades relacionadas ao Campeonato Brasileiro de Fórmula Truck – temporada 2017.

As razões que nos levaram a tal decisão foram de ordem econômica, emanadas pelo cenário que atinge o mercado brasileiro, já há três anos, com fortíssima acentuação no segmento do transporte, pelo qual pertencemos, bem como outros sérios problemas que surgiram neste semestre.

Não foi fácil chegar à condição de principal categoria do automobilismo do Brasil, mas os números não negam, alcançamos resultados muito fortes e impressionantes, sofremos e amadurecemos, mas com uma estrutura que nos permite afirmar que fizemos sucesso, e isso, só foi possível porque nossos objetivos sempre foram pela busca incessante do retorno aos patrocinadores e pela dedicação extrema ao grande público que sempre nos prestigiou.

Porém, as coisas nem sempre são do jeito que gostaríamos que fossem, chegou nossa hora de pararmos, repensar nossos caminhos, asseguramos que não vamos desistir, vamos continuar lutando para cravar outras marcas até o fim de nossa trajetória. A vida é assim, ela nos experimenta, insistimos, mas chegou a hora de discernirmos a emoção da racionalidade, as duas podem até conviver por algum tempo, mas por fim, a racionalidade sempre deve imperar.

Gostaríamos de ressalvar que estaremos envidando todos os esforços para retomarmos nossas parcerias para a temporada 2018, cabe ressaltar que estamos tão somente suspendendo o campeonato de 2017, sendo que nossas demais atividades continuam normalmente.

Agradecemos por todos os momentos em que voces, público e patrocinadores, nos deram a preferência e oportunidade de recebê-los, esperamos ter entregado não só um entretenimento nos autódromos que sempre procuramos melhorar e arrumar, mas também a certeza de que sempre bem atendemos e que cumprimos a nossa missão de construirmos amigos ao longo deste empreendimento.

A todos que acreditam no nosso trabalho, nossa mais sincera gratidão.

Obrigado pelo Carinho. Até breve,

Neusa Navarro

COMO TUDO TERMINOU

E toda a história, destes quase 22 anos, se resumiram a 3 etapas em 2017! Foram 14 pilotos participantes no geral e ao final desta última jornada tivemos:

1 – Paulo Salustiano – 146
2 – Alan Chanoski – 105
3 – Wellington Cirino – 100
4 – Cristina Rosito – 99
5 – Witold Ramasauskas – 99
6 – Carolina Cánepa – 82
7 – Joel Mendes Jr – 60
8 – Alex Fabiano – 40
9 – Fabricio Larratea – 30
10 – Rodrigo Gomes – 29
11 – Edson Ferreira – 23
12 – Valmir Benavides – 22
13 – João Cury – 14
14 – Ricardo Gargiulo – 0

COMO FOI

Ao longo de todos estes anos, segue lista dos campeões da categoria:

2016 – Felipe Giaffone
Brasileiro 2015 – Leandro Totti (vice: Paulo Salustiano)
Brasileiro 2014 – Leandro Totti (vice: Felipe Giaffone)
Sul-Americano 2014 – Leandro Totti (vice: Felipe Giaffone)
Brasileiro 2013 – Beto Monteiro (vice: Leandro Totti)
Sul-Americano 2013 – Beto Monteiro (vice: Leandro Totti)
Brasileiro 2012 – Leandro Totti (vice: Felipe Giaffone)
Sul-Americano 2012 – Leandro Totti (vice:Beto Monteiro)
Brasileiro 2011 – Felipe Giaffone (vice: Geraldo Piquet)
Sul-Americano 2011 – Felipe Giaffone (vice: Danilo Dirani)
Brasileiro 2010 – Roberval Andrade (vice: Felipe Giaffone)
Sul-Americano 2010 – Roberval Andrade (vice: Felipe Giaffone)
2009 – Felipe Giaffone (vice: Valmir Benavides)
2008 – Wellington Cirino (vice: Geraldo Piquet)
2007 – Felipe Giaffone (vice: Roberval Andrade)
2006 – Renato Martins (vice: Vinicius Ramires)
2005 – Wellington Cirino (vice: Roberval Andrade)
2004 – Beto Monteiro (vice: Wellington Cirino)
2003 – Wellington Cirino (vice: Renato Martins)
2002 – Roberval Andrade (vice: Wellington Cirino)
2001 – Wellington Cirino (vice: Renato Martins)
2000 – Jorge Fleck (vice: Renato Martins)
1999 – Jorge Fleck (vice: Renato Martins)
1998 – Osvaldo Drugovich Júnior (vice: Renato Martins)
1997 – Osvaldo Drugovich Júnior (vice: Renato Martins)
1996 – Renato Martins (vice: Sérgio Drugovich)

ESPERANÇA

Fica então, o sentimento de alegria por tudo que já passou e a fé, esperança de que dias similares retornem – o que dificilmente ocorrerá – mas, como tudo na vida são feitos de ciclos, altos e baixos, o impossível as vezes acontece! Grande abraço a TODOS os que diretamente e indiretamente participaram da história da categoria: staff, organização, pilotos, mecânicos, chefes de equipe e TODOS os demais! O TOMADA DE TEMPO parabeniza a todos pelo trabalho realizado até então e agradece ESPECIALMENTE a Dona Neusa Navarro e o piloto Paulo Salustiano por terem nos proporcionado tamanha alegria ao ver nossa marca estampada no MERCEDES de numeral #55:

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Foto: Marcelo Henrique Dias Abreu – Tomada de Tempo